Memórias de minha passagem pelo SEBO DOUTOR ANSELMO (fundado em 1996 pelos meus pais Fernando Zurita Fernandes e Sônia Dezotti Fernandes) e atualmente nas mãos do encantador André Verona. https://www.facebook.com/sebodr.anselmo?fref=ts Rua Sete de Setembro, 698. Centro - Araras - SP tel. (019) 3541 3629
domingo, 25 de janeiro de 2015
O Romance de Romance - Quinto Capítulo: A Família feliz
Desta vez dei sorte, depois de ter sido limpo e lustrado e me deliciado com as brincadeiras e carinho da Chica, funcionária do Sebo, fui escolhido por uma simpática jovem senhora que entrou acompanhada do marido e filhos. Enquanto o marido procurava na seção de Revistas sobre Eletrônicos, a filha vagava pelas prateleiras da literatura estrangeira e o filho se deliciava entre gibis do Batman e Homem Aranha, ela se aproximou docemente das estantes dos romances, exalando um perfume doce e suave, estendeu a mão esquerda e me segurou, soltando um gritinho de alegria. Explicou à Chica que meu número tinha esgotado. Procura em vão na banca da praça e estava muito feliz por ter me encontrado ali.
Colocou-me numa bolsa bonita, toda dourada, entre fotos dos filhos, controle do portão eletrônico, balas e chicletes, lenços de papel, carteira, um pequeno “nécessaire”, contas à pagar e catálogo da Natura e seguimos em direção ao carro da família.
A casa era arejada, colorida, cheia de fotos nos porta retratos e lindos quadros nas paredes. Ela tinha o costume de me ler na varanda, deitada na rede branca com barrados de macramê ao lado de um jardim bem cuidado, com folhagens, arbustos e flores visitadas por beija-flores e borboletas.
De dentro da casa vinha o som de uma música suave que a filha costumava ouvir, enquanto o filho ficava no computador e o marido, no quartinho dos fundos, mexia com seus aparelhos eletrônicos e carrinhos de controle remoto. Ela me leu rapidamente, mas por sorte, esqueceu-me sobre a estante do escritório e pude passar uma temporada agradável, acolhido por esta família feliz!
sábado, 24 de janeiro de 2015
O romance de Romance - Quarto Capítulo: Mulher submissa e oprimida
Não me demorei muito no Sebo Doutor Anselmo. Só o suficiente para apreciar os quadros da parede ao lado da vitrine, que traziam em bico de pena, gravuras de algumas capitais da Europa.
Ainda no balcão, fui escolhido por uma freguesa de aparência triste e costas um pouco curvadas. Tudo era acinzentado nela: a pele, as roupas, a bolsa, o ar que exalava pelas narinas cansadas de respirar.
Colocou-me numa sacola plástica de farmácia, onde encontrei uma caixa de anti-depressivos, e uma bolsa pequena, daquelas onde se guardam o terço para a missa, uma imagem de São Sebastião e suas flechas cravadas no corpo, um lenço bordado com suas iniciais, as chaves da casa e algumas moedas para o pão.
Sua casa era pequena e escura e cheirava à gordura velha. Ela se movia como um fantasma, quase sem pisar no chão e mesmo assim um homem gordo e suado que estava esparramado numa poltrona diante da televisão, ordenou, num grito, que fizesse silêncio.
Na TV passava um daqueles seriados antigos de Bang-bang ou faroeste, como o marido dizia.
Minha nova dona se esgueirou até o banheiro onde se trancou para ler, afoita, minhas primeiras páginas. Percebi rapidamente que o marido não gostava que lesse romances e que eu era, para ela, como um amante, um vício secreto, um mundo só seu onde ninguém conseguia penetrar.
Quando ele começou a gritar pela cerveja e pelo torresmo, praguejando a respeito do tempo que ela passava trancada no banheiro, ela me escondeu rapidamente no fundo do cesto de roupas sujas e partiu para a cozinha.
Fui lido ao longo de programas de humor barato com mulheres seminuas, de apresentações de luta livre, das vozes do Silvio Santos, do Raul Gil, do Leão Lobo e outros mais... a cada intervalo, um grito, a cada grito, o tremor das mãos, a respiração sofrida entrecortada, as costas curvando-se ainda mais um pouco, os dedos segurando minhas páginas com aflição, com se segurassem a esperança num destino melhor.
Escondido na sacola da feira, fui levado de volta ao Sebo, aliviado por sair daquela penumbra grudenta, repleta de autoritarismo e medo.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2015
O Romance de Romance - Terceiro Capítulo: A senhora idosa
Vivia com o marido. Um senhor aposentado do INSS, metido a sabe-tudo e cheio de contatos e amigos. Ele passava o dia pela rua conversando ou jogando dominó na pracinha do Tiro de Guerra e à noite sentava-se no sofá da sala para zapear todos os canais de notícia até que o sono chegasse. Aos sábados, alegava participar da equipe de bocha do clube e visitava sua amante de longa data: a ex-faxineira da agência do INSS, uma senhora cheia de decotes e curvas já acidentadas pelas varizes, celulites e gorduras que o tempo e a boa vida de amante tinham lhe rendido.
A senhora idosa aproveitava o dia para assistir seus programas de TV favoritos e quando o marido chegava, sentava-se na poltrona da sala de estar para fazer crochê, telefonar para sua sobrinha ou ler romances que a mesma sobrinha lhe emprestava.
Folheava minhas páginas com uma certa resignação, como se nada daquilo realmente importasse, mas, nos trechos mais românticos, deixava escapar um suspiro fundo, cheio de lembranças e angústias e eu podia então ler em seus olhos a desilusão de um amor não-correspondido e a dor de ter concordado com um casamento sem amor para fugir do terror de ficar para titia.
Tinha ficado para titia, de qualquer forma. Uma vida à dois sem sexo tinha sido a maneira mais eficaz de evitar os filhos, que, no fundo, ela não sabia se queria ter tido ou não. A sobrinha era seu único elo afetivo com o mundo.
Quando terminou de me ler, esperou chegar a manhã de sábado, colocou-me numa bolsa de couro velha, cheirando à mofo e levou-me para o Sebo Doutor Anselmo, onde fui trocado por uma revista de biquinhos de crochê para dar acabamento em panos de prato.
quarta-feira, 21 de janeiro de 2015
O Romance de Romance - Segundo Capítulo: A Moça Romântica
Era uma bolsa rosa de plástico e dentro dela encontrei um baton rosa, chaves, um aparelho de telefone celular, um estojinho com escova e pasta de dentes, uma carteira e algumas presilhas de cabelo.
A moça que me comprara era loira, de pele bem clara. Vestia uma blusa rosa com rendas brancas, uma saia rodada e sapatilhas de boneca.
Sua casa era simples, pequena e extremamente limpa. Seu quarto todo rosa, cheio de pôsters de artistas de cinema nas paredes. Ela vivia sozinha mas isso não parecia ser motivo de incômodo ou angústias pois ela tinha a mim e aos outros livros como companhia.
Trabalhava como vendedora num loja e levava uma vida previsível e repetitiva. A rotina a mantinha equilibrada e seguia seu dia-a-dia respeitando a ordem e o método que havia imposto a si mesma há anos. Tinha 37 anos mas aparentava 17 nas maneiras e na forma de pensar e reagir às coisas do mundo. Sonhava com o príncipe encantado que um dia viria à sua porta, montado em seu cavalo branco, resgatando-a daquele mundo rosa e plastificado.
Folheava minhas páginas suspirando de leve. Se o telefone tocasse, ia atender irritada, mas disfarçava a voz para que não percebessem. Recebia telefonemas de algumas amigas do trabalho e, principalmente de uma tia-avó que todo dia ligava para reclamar do marido, ou de alguma doença imaginária. Ouvia pacientemente os lamentos e histórias das interlocutoras e voltava afoita para o nosso mundo: um mundo encontros e desencontros, que sempre terminava em declarações de amor e uniões mágicas e eternas.
Assim que terminou de me ler, emprestou-me à sua tia-avó. Aquela que ligava todo dia.
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
O romance de romance - Primeiro Capítulo : Da gráfica para a banca... da banca para a primeira bolsa
Os primeiros lampejos de consciência que tive, me vêm à memória um pouco nebulosos. Éramos muitos livros iguais, prensados e arranjados em fardos. Da gráfica onde nascemos fomos transportados para uma distribuidora e depois separados, para sermos encaminhados em pequenos grupos de iguais para as bancas de jornal.
Lembro-me da viagem longa, sacolejando no furgão, entre revistas e gibis, até chegar à banca da Praça Barão de Araras, onde fiquei exposto, admirando o Obelisco, a Fonte e o Coreto, a fachada da Igreja Matriz, a alameda de árvores que ladeiam a calçada, a loja de noivas, a esquina do Bradesco onde, segundo me contaram as estantes da banca de jornais, um dia existiu o casarão da Família Zurita Fernandes.
Numa manhã de sol forte e céu azul, fui escolhido, pago e colocado na primeira bolsa de mulher.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
O Romance de Romance – memórias de um livro feminino de bolso - Prefácio
Conheci Romance no pátio de uma usina de reciclagem de lixo. Ele estava descorado, com a capa pela metade e as páginas puídas, grudadas pelo vai e vem da umidade, da chuva, do sol e do vento. Eu não tentei, mas talvez nem fosse mais possível lê-lo. Isso pouco me importava, eu não queria saber das histórias de amor cheias de ilusão e finais felizes, o que eu queria, naquele momento, passados quase cincoenta anos de existência, era a realidade, a vida cotidiana de moças, jovens e senhoras. Vidas vividas, choradas, sorridas, suadas, corridas, cansadas e até às vezes, divertidas das mulheres que tinham por hábito (e talvez até por vício) ler romances de bolso. E isso, cara leitora, isso Romance podia me dar.
Escondi-o rapidamente na bolsa e saí apressada da usina de reciclagem sabendo que levava comigo um tesouro.
No início, tive que ter paciência e cuidado, pois Romance ainda estava muito abalado com o que vira na usina de reciclagem. Segundo ele, de tudo o que vivenciara desde a gráfica onde nascera, à banca de jornal, à primeira bolsa que frequentara, às idas e vindas do Sebo Doutor Anselmo, entrando e saindo de tantas bolsas femininas, nada se compararia à degradação humana que ele assistira na usina de reciclagem. Mas esta era uma outra história que Romance preferia esquecer, uma história de ausência de princípios, de falta de ética e humanidade, de horror por assim dizer. Romance queria mesmo se recuperar para contar o que ele chamava de “pérolas da humanidade”, ou seja, a vida (e morte) das mulheres que manusearam suas páginas, que suspiraram pela história, que o guardaram e tiraram tantas vezes de suas bolsas, os momentos mágicos nas estantes do Sebo Doutor Anselmo...
Romance se considera recuperado e pronto, daqui para frente deixo a ele o papel de narrador desta história, composta de muitas outras histórias.
Adriana Dezotti Fernandes
Chácara Cavalinho Pucareno.
Domingo, 21 de novembro de 2010.
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
O cospe cospe
numa escala de 0 a 10
dos loucos que aparecem por aqui
esse aí é 12!
totalmente fora de si
alucinado
andando desgovernado
entrou pela primeira vez
perguntando por uma bíblia
tinha uma de 7 reais
falei que custava $1,00
saiu
voltou mais tarde
perguntou de novo
e se foi
e voltou
tirou o chinelo Havaiana
cuspiu
pisou no cuspe
calçando o chinelo novamente
se foi
lá pela 5ª vez
na semana
voltou com um real
"quero a bíblia"
pronunciou com sua entonação
de Exú
peguei
entreguei
tentou me agarrar
falei firme que não
olhar vago
corpo cambaleando
rezei então
mentalmente
a oração do exorcista:
"Levanta-te Deus
intercedendo à bem aventurada
Virgem Maria,
São Miguel Arcanjo
e toda a milícia celeste..."
só pra garantir
já que
"existem muito mais coisas
entre o Céu e a Terra
do que nossa vã consciência
pode imaginar!"
saiu esbarrando nas romanceiras
já voltou algumas vezes
já rezei de novo
quem sabe um dia
encaminho essa legião
pra uma manada de porcos
que se atirarão no abismo
assim como
(dizem)
o fez um dia
um certo Homem de Nazaré...
dos loucos que aparecem por aqui
esse aí é 12!
totalmente fora de si
alucinado
andando desgovernado
entrou pela primeira vez
perguntando por uma bíblia
tinha uma de 7 reais
falei que custava $1,00
saiu
voltou mais tarde
perguntou de novo
e se foi
e voltou
tirou o chinelo Havaiana
cuspiu
pisou no cuspe
calçando o chinelo novamente
se foi
lá pela 5ª vez
na semana
voltou com um real
"quero a bíblia"
pronunciou com sua entonação
de Exú
peguei
entreguei
tentou me agarrar
falei firme que não
olhar vago
corpo cambaleando
rezei então
mentalmente
a oração do exorcista:
"Levanta-te Deus
intercedendo à bem aventurada
Virgem Maria,
São Miguel Arcanjo
e toda a milícia celeste..."
só pra garantir
já que
"existem muito mais coisas
entre o Céu e a Terra
do que nossa vã consciência
pode imaginar!"
saiu esbarrando nas romanceiras
já voltou algumas vezes
já rezei de novo
quem sabe um dia
encaminho essa legião
pra uma manada de porcos
que se atirarão no abismo
assim como
(dizem)
o fez um dia
um certo Homem de Nazaré...
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